ESPARTA

Esparta e o novo guerreiro

Abril 2, 2007 · 9 Comentários

O ideal do guerreiro homérico deveria ser adaptado para a vida das cidades. No caso de Esparta, o indivíduo desaparece diante do ideal colectivo. Em Esparta, não se trata de formar o herói, mas sim uma cidade de heróis. 

Henri-Irénée Marrou fornece-nos uma pista para esta reviravolta: segundo ele, trata-se de uma revolução ética causada por uma revolução técnica, na verdade, uma mudança radical na técnica de guerra. No contexto da guerra entre as cidades, o guerreiro de modelo homérico, que vai ao campo de batalha no seu carro de guerra e escolhe contra quem combater, é substituído pela formação da falange de hoplitas, um batalhão de soldados de infantaria pesadamente armado, com capacete, escudo, caneleiras, uma lança longa e uma espada curta.  Essa falange que se move e combate unida, obedece ao comando central dos seus oficiais e generais e entende que a vitória na batalha e, em última instância, a segurança individual de cada um dos seus membros depende da solidariedade do companheiro que está imediatamente ao lado. Assim, o escudo do guerreiro é deslocado para a esquerda sempre que ele sente que o seu companheiro está em perigo. 

A força da falange reside na resistência que o indivíduo exerce contra o seu próprio medo. Bastará um soldado ceder ao medo e iniciar a fuga, e o pânico estará instalado e toda a falange se romperá. Assim, uma análise da educação espartana, expressa por Xenofonte, escritor do século IV a.C., e por Plutarco, autor do século I da nossa era, pode ser entendida sob o ponto de vista das técnicas que visam a criação da solidariedade entre os membros da futura falange, o controle do medo e o surgimento da coragem.  

Todos os exercícios e todas as práticas educacionais estavam voltados para a formação do guerreiro e uma parte importante dessa educação era a interiorização dos valores sociais espartanos. Esta era propiciada pelos poemas de Tirteu, cantados desde a mais tenra idade. O poeta Tirteu, que viveu no séc. VII a.C., pode ser considerado o “ideólogo” do Estado espartano, pois nele encontramos expresso o principal valor de Esparta: a coragem.  

1 “Eu não lembraria um homem pela sua excelência (aretê) na corrida ou na luta,

nem que tivesse dos Ciclopes a estatura e a força

e vencesse na corrida o trácio Bóreas,

5 nem que tivesse figura mais graciosa que Titono,

ou fosse mais rico do que Mídias e Ciniras,

ou mais poderoso que Pélops, filho de Tântalo,

ou que tivesse a eloquência dulcíssima de Adrasto

ou possuísse toda a glória – se lhe faltasse a coragem valorosa.

10 Pois não há homem valente (agathós) no combate,

se não suportar a visão da canificina sangrenta

e não atacar, colocando-se de perto.

É esta a excelência (aretê), este é entre os homens o maior galardão,

e o mais belo que um jovem deve obter.

15 É um bem comum para a cidade e todo o povo,

que um homem aguarde, de pés fincados, na primeira fila,

encarniçado e esquecido da fuga vergonhosa,

expondo a sua vida (psikhé) e ânimo (thymós) sofredor,

e, aproximando-se, inspire confiança com as suas palavras àquele que esteja ao seu lado.

20 Um homem assim distingue-se no combate.

Em breve derrota as falanges furiosas dos inimigos,

com o seu ardor detém as vagas da batalha.

Se ele cair na primeira fila, vendendo cara a vida (thymós),

deu glória à cidade, ao povo e ao pai,

25 se for mal ferido, na frente, ao peito,

do escudo bombeado e da couraça.

Choram igualmente os novos e os velhos,

aflige-se a cidade com amarga saudade.

O seu túmulo, os seus filhos serão notáveis entre os homens,

30 bem como os filhos dos filhos, e toda a posteridade.

Jamais perecerá a sua nobre glória e o seu renome,

mas mesmo debaixo da terra será imortal,

aquele a quem perder o fogoso Ares, quando praticava altos feitos (aristeúein),

e resistia, combatendo pela pátria e pelos filhos.

35 Mas, se escapar ao destino (kér) da morte que deita por terra,

e alcançar, vitorioso, a glória fulgente da lança,

honra-lo-ão por igual os jovens e os anciãos,

e, depois de gozar muitas delícias, descerá ao Hades.

Quando envelhecer, distinguem-no os cidadãos, e ninguém,

40 quererá prejudicá-lo, faltando ao respeito ou à justiça.

Todos por igual, novos, ou da sua idade, ou mais velhos,

na sua terra, lhe cedem o lugar.

E agora, que todos os homens tentem chegar aos píncaros

desta excelência (aretê), sem desviar o ânimo (thymós), da guerra.” (Frag. 9 Diehl)

Fazendo a análise deste fragmento de Tirteu, podemos constatar as mudanças que a ética homérica sofreu em Esparta. Dos versos 1 a 9 o poeta arrola aquelas excelências (aretái) e dotes prezados nos poemas homéricos: habilidades atléticas, porte gracioso, riqueza, poder, eloquência, glória e afirma que nenhuma delas tem valor na ausência da coragem guerreira (andréia). Dos versos 10 a 22 ele define o que é essa coragem guerreira, segundo os padrões espartanos: suportar a visão da carnificina sangrenta (verso 11), atacar (verso 12), aguardar na primeira fila sem lembrar da fuga (versos 16-17), expor a vida ao perigo (verso 18), inspirar confiança nos companheiros (verso 19). Dos versos 23 a 34 Tirteu exalta aquele que morre pela sua cidade, destacando a sua honra e a sua glória, que se reflecte nos seus descendentes. A finalização do poema (versos 35-44) fala daqueles que, escapando da morte nos campos de batalha, envelhecem honrados entre os seus pares. 

Assim, morrer com coragem e sobreviver com coragem equivalem-se. A leitura do poema demonstra que, para Esparta, só existe aretê na vida guerreira. Ter coragem é sempre o objectivo, posto que, qualquer que seja o desfecho, a morte nos campos de batalha ou a sobrevivência e a consequente velhice, para o guerreiro corajoso ele será sempre honroso.

Categorias: História de Esparta

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