A Verdade sobre Esparta

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Mais democrática do que Atenas

 

Ao contrário do que é costume pensar, a cidade de Esparta era mais democrática do que Atenas, e pelo menos tão heróica como a sua lenda. Provavelmente devemos-lhe a civilização ocidental.

 

Mesmo para os turistas do império Romano, gente viajada e mais do que habituada a espectáculos sangrentos, tratava-se de uma atracção especial. O êxito era de tal ordem que, por volta do ano 200 da nossa era, foi autorizada a construção de um anfiteatro em volta do templo, para os visitantes poderem acompanhar melhor todos os pormenores do ritual.

Lá em baixo, um adolescente nu tentava apanhar um queijo colocado no altar da deusa Artémis, enquanto um sacerdote o chicoteava sem dó nem piedade, fazendo espirrar sangue sobre o altar. O jovem que aguentasse mais tempo era saudado como um campeão, quando tinha a sorte de sobreviver à cerimónia.

 

Provavelmente os estrangeiros abandonavam o anfiteatro satisfeitos, pois tinham testemunhado um legítimo costume da lendária cidade-estado de Esparta.

Para muita gente, a imagem de um adolescente torturado resume na perfeição o significado de Esparta para a História. Na escola, aprendemos que, entre as cidades gregas de há 2500 anos, Atenas foi o berço da democracia e da liberdade de pensar e criar que tanto valorizamos, enquanto os espartanos viviam sob um regime totalitário cuja única preocupação era a guerra, e submetiam os jovens ao treino militar mais desumano do planeta.

Desse ponto de vista, passar de superpotência grega a parque temático sadomasoquista teria sido o destino mais do que merecido. Porém. tal como a visão dourada de Atenas, a imagem dos espartanos não passa de uma grosseira simplificação. Sem a liderança dos espartanos, a Grécia (e, provavelmente, boa parte da Europa) ter-se-ia tornado uma mera província do Império Persa, com consequências imprevisíveis para o mundo de hoje.

 

Em quatro grandes batalhas contra os persas, os espartanos ajudaram a proteger o que será a origem do mundo ocidental. Por mais estranho que pareça, a verdade é que esparta esteve entre as primeiras cidades gregas a criar um governo constitucional, todos os seus cidadãos era iguais perante a lei e os seus exércitos foram vistos como libertadores, face à ambição de Atenas. Por isso, vale a pena tentar ver melhor através das brumas que cercam a cidade mais controversa da Grécia.

 

 

Fruto do primeiro desastre da história grega

 

Mito e arqueologia concordam num ponto:Esparta é um produto do primeiro grande desastre da história grega. Até por volta do ano 1200 a.C., o Peloponeso (como é conhecida a região do extremo sul da Grécia onde fica a cidade) estava cheia de pequenos reinos. Inscrições e objectos achados nos palácios do Peloponeso mostram que os seus habitantes já falavam uma forma primitiva de grego e levavam uma vida de luxo, importando cerâmica, metais preciosos e marfim do Egipto, da Palestina e da actual Turquia.

 

Porém, uma onda de invasões e saques acabou com a sua tranquilidade. Boa parte dos grandes palácios do Peloponeso foi queimada e a região voltou a um estilo de vida rústica e rural durante cerca de um século.

 

É então que, pouco antes do ano 1000 a.C., como sugerem as mudanças na cerâmica e em outros objectos do dia-a-dia, chegou um novo povo: os dórios, antepassados directos dos espartanos. Na mitologia grega, a chegada dos dórios ficou conhecida como “o regresso dos filhos de Héracles”. Os descendentes do mítico herói que conhecemos como Hércules seriam os legítimos herdeiros do reino do Peloponeso, injustamente expulsos da sua terra. Até que os filhos de Héracles reuniram um exército formado por três tribos do norte da Grécia e recuperaram o que era seu.

A parte da herança é uma invenção para legitimar a invasão, mas os dórios tinham realmente uma origem étnica comum e falavam um dialecto do Norte. Parte dos recém-chegados ocupou a Lacónia, o vale fértil do rio Eurotas, e fundou quatro aldeias perto de um povoado da época dos palácios. Por volta do ano 900 a.C., as quatro aldeias reuniram-se politicamente para formar Esparta.

Unificada, a cidade partiu para uma expansão muito respeitável. Toda a Lacónia caiu nas mãos de Esparta: alguns habitantes (provavelmente, os que resistiram aos ataques) engrossaram as fileiras dos servos, chamados “hilotas”, enquanto outras aldeias conseguiram manter a autonomia interna, desde que reconhecessem a soberania espartana. Os seus habitantes ficaram conhecidos como “periecos” (os que vivem em volta). A expansão durou até cerca do ano 700 a.C. Nessa altura, a cidade de Esparta era dois quintos do Peloponeso.

 

 

A primeira monarquia constitucional do mundo

 

Evidentemente, todas estas conquistas trouxeram prosperidade. No século VII a.C., Esparta já tinha uma aristocracia apreciadora das artes e desenvolvia actividades comerciais marítimas. Os poetas e músicos de Esparta eram conhecidos em toda a Grécia, e a sua elite tinha uma vida luxuosa, com finos objectos de bronze e metais preciosos fabricados localmente ou importados da Ásia. No entanto, há indícios de que só alguns espartanos beneficiavam realmente com as vitórias, tornando-os senhores do grosso das novas terras, enquanto os outros empobreciam.

 

Surgiu tensão social, acompanhada pela dificuldade militar de conter as constantes rebeliões. A tradição espartana que chegou até nós por relatos de historiadores como Hérodoto, Xenofonte e Plutarco, diz que a solução para esses problemas foi encontrada pelo sábio Licurgo, tio e tutor de um dos reis da cidade, que teria lançado uma profunda reforma política: todos os cidadãos (isto é, todos os homens livres de Esparta) passavam a eleger os 28 membros da Gerúsia, o Concelho dos Anciãos, encarregado de elaborar as leis da cidade. Os reis continuaram a ter uma série de privilégios simbólicos (o mais bizarro era o direito de ficarem com a pele e o lombo de todos os animais sacrificados aos deuses), mas, na prática, tornaram-se simples generais hereditários. O poder de decisão estava nas mãos do “domos” (o povo, na versão dória da palavra que está na raiz do termo “democracia”).

Reunidos em assembleia, os homens de Esparta podiam aprovar ou vetar as propostas da Gerúsia, usando um método que parece saído de um programa televisivo: ganhava o “sim” ou o “não” conforme a claque que se mostrasse mais barulhenta. Houve também uma reforma agrária: cada espartano recebeu um lote de terreno suficiente para sustentar a sua família. A reforma foi completada mais tarde, com o aparecimento dos eforos, cinco magistrados eleitos anualmente por todos os espartanos e que, na prática passavam a deter a maior parte do poder de executar as leis. Na época em que foi criado, este sistema era revolucionário. O Médio Oriente era dominado por monarcas absolutos, considerados semideuses. Atenas, futuro símbolo da democracia, estava nas mãos de um grupo minúsculo de famílias nobres e ricas, tal como as outras cidades gregas.

Parece ter sido Esparta a inventar a ideia de que até os plebeus pobres tinham o direito de eleger os seus representantes e ser eleitos, e de que ninguém, nem mesmo os reis, estava acima da lei. E não era apenas teoria: a história espartana está cheia de relatos sobre soberanos que abusaram dos seus poderes e foram presos ou exilados. É verdade que os hilotas e os periecos continuavam sem direitos políticos, mas o mesmo sucedia com os escravos de todas as outras cidades gregas.

Foi a partir daí, numa sociedade quase democrática, que começou a nascer a futura fama de Esparta como potência militar. Também por volta do século VII a. C., os gregos passaram por uma revolução na arte da guerra. Antes, o costume era que apenas os nobres e a sua guarda pessoal lutassem, e os combates não passavam de pequenas expedições para roubar o gado ou raptar as mulheres da aldeia vizinha. Porém, a população e a riqueza da Grécia tinham crescido e os conflitos cresciam na mesma proporção; era preciso juntar o maior número de soldados no campo de batalha.

 

 

Super-Soldados

 

Os exércitos das cidades-Estado passaram a agir como grandes unidades: No contexto da guerra entre as cidades, o guerreiro de modelo homérico, que vai ao campo de batalha no seu carro de guerra e escolhe contra quem combater, é substituído pela formação da falange de hoplitas, um batalhão de soldados de infantaria pesadamente armado, com capacete, escudo, caneleiras, uma lança longa e uma espada curta. Essa falange que se move e combate unida, obedece ao comando central dos seus oficiais e generais e entende que a vitória na batalha e, em última instância, a segurança individual de cada um dos seus membros depende da solidariedade do companheiro que está imediatamente ao lado. Assim, o escudo do guerreiro é deslocado para a esquerda sempre que ele sente que o seu companheiro está em perigo. A força da falange reside na resistência que o indivíduo exerce contra o seu próprio medo.

 

Ora, se a massa dos cidadãos passa a ser importante na guerra, a cidade não pode passar sem eles, o que colocou um poder considerável nas mãos do “domos” de esparta: o povo ganhou força para exigir direito de voto ou uma horta nos arredores, e o sucesso das reformas foi indiscutível. Enquanto o resto da Grécia vivia dois séculos de ditadores e revoluções, Esparta tornou-se um oásis de estabilidade.

Para manter as conquistas e o sistema político, todos os cidadãos de esparta passaram a ser preparados desde pequenos para serem super-soldados. O treino chamava-se, simplesmente, “agogué” (criação). A única descrição que temos deste termo é do ateniense Xenofonte, que escreveu tarde, por volta do ano 400 a.C. Segundo Xenofonte, as provas começavam ao nascer: os bébés eram lavados com vinho e levados aos anciãos do clã para inspecção. Os disformes ou demasiado fracos eram abandonados. Nada de especial: todos os gregos praticavam o infanticídio em situações semelhantes. Os meninos ficavam com a mãe até aos seis anos, depois passavam a ser criados em pequenos grupos, por um supervisor; dormiam em casernas e aprendiam a cantar e a dançar (exercícios adequados para se habituarem ao ritmo da marcha militar), a ler e a escrever.

Quando chegavam à adolescência, rapavam-lhes o cabelo. eram obrigados a usar apenas um manto leve, fizesse chuva ou sol, e a andar sempre descalços. recebiam pouca comida, podiam complementar a dieta roubando, mas, se fossem apanhados, esperava-os um castigo terrível: as chicotadas. Como já vimos, surgiam até nos rituais religiosos.

Os jovens aprendiam a falat apenas o essencial; daí a expressão “laconismo”, derivada do nome de Lacónia, o vale fértil onde Esparta foi fundada. “Seria mais fácil ouvir as vozes de estátuas de pedra do que as daqueles rapazes”, afirma Xenofonte. Os jovens praticavam a dança e o canto, em elaboradas cerimónias que simulavam os movimentos da guerra.

As relações amorosas entre adolescentes e rapazes mais velhos eram comuns e até incentivadas; os adultos eram considerados mentores dos mais novos.

 

Segundo Tucídides, é aos espartanos que devem ser atribuídas duas inovações que serão depois adoptadas por todos os gregos: “a nudez completa do atleta (…) e o uso do óleo para embrocação” 

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6 responses to “A Verdade sobre Esparta

  1. adorei o filme 300 mas gostava de ver o livro

  2. Gostei muito do que foi escrito nesta página, foi de grande ajuda para obter mais informações sobre o povo espartano e sua origem. :)

  3. Os espartanos foram revolucionários em várias coisas, mas eles não foram os principais responsáveis pela vitória contra a Pérsia. Atenas liderou a vitória contra Dario em Maratona – sem a ajuda de Esparta. Contra Xerxes, ao contrário do que dizem os filmes, não foram só os 300 espartanos que morreram nas Termópilas.
    Em seguida, Atenas foi saqueada, mas venceu a Batalha Naval de Salamina com menos de 1/4 do número de barcos dos persas. Por fim, em Platéias, Esparta teve uma ajuda significativa. Mas Atenas foi a que mais se doou à guerra e a que mais sofreu, tanto que passou a liderar a Liga de Delos e exigiu altos impostos das outras póleis – que inicialmente aceitaram. Esparta, com o tempo, se indignou e iniciou a Guerra do Peloponeso.
    Os espartanos deviam vencer a qualquer custo, inclusive trapaceando. Vergonhoso não era trapacear, mas sim ser pego trapaceando – e isso era ensinado aos garotos desde o princípio. Na Guerra do Peloponeso, aceitaram ajuda persa para enfrentar Atenas.

    Mas o texto foi ótimo. Só faltou falar das mulheres, que acho que é a maior evolução de esparta.

  4. Relativamente ao “Jogo do Queijo” que mencionam, os romanos deturparam o verdadeiro significado e finalidade deste jogo. De acordo com os poucos registos que chegaram até nós, o jogo do queijo tratava-se de um exercício para escolher um campeão entre os diversos infantes espartanos, que em principio seria líder dentro desse pequeno circulo que disputava o queijo que era a recompensa imediata do vitorioso. A disputa era entre os próprios infantes e não tinham nenhum sacerdote a chicoteá-los. Havia isso sim um supervisor que punia aqueles que por medo ou por inépcia se recusavam a participar no jogo. Era uma forma de treino igual a tantas outras para fazer emergir o espírito guerreiro dos infantes espartanos.

  5. s0u formada em história e gosto muito da história antiga adorei esse saite é maravilhoso. parabéns a todos que fazem parte dessa grande viagem pelo passado.

  6. É muito grande este texto mais me ajudou bastante obrigada !!

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