Espartanos

Por Pedro Herrasti

Eu, que amanhã hei-de morrer, escrevo estas letras à luz de um archote esperando que amanheça. Contemplo o resplandor das estrelas e reparo que o seu brilho é muito diferente da obscuridão que envolve os cadáveres que se extendem frente a mim, os mesmos que tingem de vermelho o barro que piso e cujo odor a acre me repugna tanto como saber que amanhã eu serei mais um entre eles. Eu, Agatocles, soldado espartano, estou de guarda no desfiladeiro das Termópilas, sei que hoje nos rodearam e que este lugar será o meu túmulo e ao pensá-lo o meu estômago encolhe-se de frio, como se a gelidez da morte quisesse já invadir o meu corpo. Por isso escrevo com a minha letra minúscula e ao fazê-lo as minhas mãos deixam de tremer e sinto que os meus temores diminuêm. Não, não vale a pena tentar fugir ao resguardo da obscuridade, no seu lugar escrevo e estas letras falarão por mim quando eu estiver morto, elas explicarão porque aceito o meu destino; sim, serão elas que darão conta dos motivos pelos quais aqui espero a morte.

De nós, os espartanos da guarda do rei Leónidas, dizem que somos homens justos, que fomos eleitos entre aqueles que mais desprezam as riquezas e o luxo e que nunca nos deixamos corromper pelo ouro, mas na verdade eu vos digo que quem disse isso mente. Em Corinto vimos pela primeira vez ouro e prata em abundância e lançamo-nos sobre eles ansiosos pelo saque, porém,  rapidamente vimos o irmão lutar com o irmão por uma taça de prata ou homens que haviam lutado ombro com ombro a disputar uma escrava de olhos verdes. Leónidas vio-nos possuidos pela codícia e convocou-no para a Agora, ali lançou por solo o que lhe havia correspondido e disse “Aí tendes a minha parte, matai-vos por ela”. Nós, os trezentos homens da sua guarda, sentimo-nos envergonhados e de igual forma livramo-nos também das nossas riquezas. Desde essa noite abandonamos os palácios de mármore e dormimos fora da cidade, a coberto das nossas tendas de linho. Todos os homens do exército de Esparta nos enalteceram e disseram: “Estes são homens justos que não se deixam corromper”, embora tenham repartido o nosso ouro, o que a nós pouco nos importou, porque haviamos visto o preço da opulência e nos pareceu tão alto que nem um só dos trezentos teve ânimo para permanecer na cidade.

Por isso, quando vislumbramos Xerxes na colina vestido de seda enfeitada com pedras preciosas, desprezamo-lo de imediato. Contudo, naquela mesma tarde ofereceu-nos um carro carregado de ouro em troca de lhe deixarmos caminho aberto, o que nos levou a sentirmos de novo el gosto da codícia no nosso interior e julgo que ninguém se viu livre de desejar essas riquezas e abandonar o desfiladeiro e viver, porém, Leónidas  colocou-se à nossa frente. Ele conhece-nos e por isso não falou de honra, glória ou pátria, porque sabia que nesta ocasião esses termos iriam soar mal nos nossos ouvidos face à palavra vida. “Quiçá algum de vós deseje viver em Corinto”, disse, “aquele que quiser pode colher a sua parte e abandonar-me. Quem o fizer recomendo-lhe que carregue muito ouro para assim esquecer o rosto dos amigos que deixa para trás, embora lhe faltará ainda mais ouro para esquecer o sangue dos que morrerão pela sua traição ali diante do desfiladeiro”. Dito isto, permaneceu em silêncio e ninguém se mexeu, nem um só de nós lançou as armas ao solo. Naquele momento regozijamo-nos por estarmos ali junto ao nosso rei. Assim foi, e quem disser o contrário merece a morte.

De nós, os espartanos da guarda do rei Leónidas, dizem que somos homens de grande valor, que não tememos a morte e desprezamos a lâmina das armas dos inimigos. Eu, em boa verdade vos digo que quem disse isso mente, que ao vermos as lâminas do inimigo se encolhe o coração e tememos o corte do aço e a dor das feridas, mas muito pior que essa dor se nos afigura sofrer o desprezo do amigo que combate ao nosso lado, a vergonha da mulher que espera o nosso regresso, ou o repúdio do ancião que um dia lutou por nós. Por tudo isso dominamos os nossos temores e lutamos possuidos de uma fúria selvagem que resplandece nos nossos olhos, embora esse olhar não seja de ódio ao inimigo, mas de espanto por saber que a morte caminha sempre a nosso lado e que qualquer um pode ser o próximo. Assim é, e quem disser o contrário merece a morte.

De nós, os espartanos da guarda do rei Leónidas, dizem que somos homens leais e que lutamos pela liberdade dos cidadãos helénicos, pela justiça e pela lei, mas em boa verdade vos digo que quem disse isso mente. Amanhã, ao amanhecer abraçaremos os nossos escudos e, após empunhar as lanças, escutar-se-ão os nossos hinos de guerra ressoar no desfiladeiro e lançar-nos-emos contra as hordas dos bárbaros. Eu avançarei ombro com ombro, ocupando o meu posto na falange cerrada, sentirei o calor, a luz do sol, o odor do ferro, o suor dos homens, sabendo que tudo isso o farei pela última vez. A minha lança manchar-se-á de sangue, matarei dez bárbaros, ou cem, ou mil, mas isto valherá pouco, porque o meu ventre será atravessado pelas lanças do inimigo e morrerei, mas não o farei pela liberdade dos helénicos, nem pela justiça e a lei, nem sequer morrerei por Esparta. Morrerei para não me tornar escravo, arrastando as correntes da servidão pelos desertos de Media; morrerei para vingar Agesilao, meu amigo, que vi cair ontem atravessado por uma flecha egípcia; morrerei junto a Arquíloco, que me cubriu o flanco con o seu escudo em dez batalhas e amanhã o cubrirá pela última vez; morrerei por Leónidas, que nos conduz para a morte, mas a quem estamos agradecidos porque antes fez de nós homens. 
 

Amanhã, quando a noite cair, da guarda do rei Leónidas só restará um conjunto de corpos sem vida, depois um punhado de ossos, a seguir um punhado de poeira, e por fim nada. Quiçá então, quando for esquecido o nome de Esparta e inclusive o vasto império do Rei dos Reis tiver sucumbido ao esquecimento, alguém recordará o nosso sacríficio e verá que pela nossa morte fomos justos, valentes e leais, assim como por tudo o que não chegamos a ser em vida, e então dirá: “os espartanos da guarda do rei Leónidas morreram há muito tempo, mas a sua recordação permanece imortal”. Assim será, e quem disser o contrário merecerá a morte.

34 responses to “Espartanos

  1. Texto absolutamente arrepiante, é daquele tipo de textos que deveria ser leitura obrigatória nas escolas desde a mais tenra idade, porque o homem que interiorizar estas palavras será sempre um bom cidadão e um ainda melhor soldado. E quem disser o contrário merece a morte…

  2. Viva a democracia de Atenas e abaixo o totalitarismo espartano!

  3. Muito bom…
    qual a fonte e veracidade?

  4. Caro Giovan, este texto é resultado da inspiração do senhor que assina o mesmo, certamente um leitor de “Portas de Fogo” de Steven Pressfield e da gesta memorável que nos legaram os heróis das Termópilas.

    Sendo um texto ficcionado não deixa de ser um relato que me arrepiou e que considero notável.

  5. Caro Ismael, Esparta representa a verdadeira e única democracia, a democracia aristocrática, ou seja, uma democracia dirigida pelos melhores!

  6. A Democracia e a Beleza Ateniense sempre necessitaram da Força, da Raça e da Coragem Espartana, caro Ismael Paulino!
    Até hoje Esparta serve de exemplo, vide dentro muitas outras às palavras: Modo de Vida Espartano; significando um meio de vida Austero. A Democracia Ocidental, nasceu e sobreviveu graças a Batalha das Termopilas!

  7. Em Esparta o poder vinha antes do merecimento, do que de qualquer outra coisa!

  8. Tive um Avô que se chamou Spartaco e que era descendente Italiano. Ele morreu lutando pelo que acreditava e pelo que me lembro dele, poderia enquadrá-lo facilmente entre os relatos lidos acima. Que essa mensagem seja lida por nossos filhos e netos e assim acabemos com essa sociedade que se torna decadente e corrompida a cada dia que passa.

  9. caro amigo
    gostaria q vc lesse meu texto
    e se possivel fizesse o link dele aqui
    agradeceria tb as criticas

  10. Caro Foxx, já visitei o seu blog e li os textos presentes, os quais me surpreenderam muito pela positiva. Parabéns sinceros pela iniciativa e pela originalidade, pois não creio que essa vertente, a agogê, tivesse sido devidamente explorada e ainda para mais em português.
    Como não poderia deixar de ser o seu blog está já linkado.

    Continuação de um excelente trabalho e melhores saudações.

  11. CARO RUI…A GRÉCIA TODA ERA UMA ARISTODEMOCRACIA….A CORAGEM DE ESPARTA POR MORRER PELA LIBERDADE AO INVÉS DE SER SUBJUGADO POR UMA OUTRA NAÇÃO DESPÓTICA E AUTOCRÁTICA (PERSAS DAQUELA ÉPOCA) DEMONSTRA O CONTRÁRIO ….EXISTIAM EM ESPARTA 2(DOIS) CONSELHOS COMO SE FOSSEM CÂMARA E SENADO. A AUTORIDADE REAL ERA CONTROLADA POR UM SENADO DE 28 MEMBROS QUE ERAM ESCOLHIDOS POR ACLAMAÇÃO ENTRE OS CIDADÃOS MAIS VELHOS. OS ESPARTANOS DO SEXO MASCULINO, LIVRES E DE MAIS DE 30 ANOS, FORMAVAM A ASSEMBLÉIA QUE SE REUNIA UMA VEZ POR MÊS, NA LUA CHEIA, PARA APROVAR OU VETAR OS QUE A LEGISLAÇÃO PRINCIPAL TINHA EM PAUTA. O REI NÃO PODIA FAZER O QUE ELE BEM ENTENDESSE….NÃO ERA QUE NEM HITLER OU STALIN….NÃO VENHA FALAR EM TOTALITARISMO. TOTALITÁRIO ERA EXATAMENTE XERXES, O REI DA PÉRSIA!!!! NENHUMA NAÇÃO DAQUELE TEMPO TINHA UMA CONSCIÊNCIA DE LIBERDADE COMO OS GREGOS (TODOS ) TINHAM – FRUTO DE SUA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA E SOCIAL. ATENAS, CLARO VALORIZOU MAIS O INDIVÍDUO…MAS DAVA MENOS VALORES AS VIRTUDES COMO CORAGEM E LEALDADE!! A MORTE DOS 300 ESPARTANOS MOTIVARAM OS TEBANOS E ATENIENSES A LUTAREM UNIDOS EM PROL DE SEUS IDEÁRIOS DE JUSTIÇA E LIBERDADE. O QUE DIGO AQUI SÃO MENÇÕES DE HISTORIADORES E FILÓSOFOS ANTIGOS E CONTEMPORÂNEOS!!

  12. OBS: ERA PARA O ISMAEL PAULINO E NÃO RUI…

  13. “MENÇÕES DE HISTORIADORES E FILÓSOFOS ANTIGOS E CONTEMPORÂNEOS!!”

    Estou sempre pronto a reconhecer a minha ignorância. Por favor, indique-me essas fontes e procurá-las-ei pessoalmente. Obrigado.

  14. Excelente! Parabéns pelo inspirado texto. Há neles uma exaltação de valores e virtudes esquecidos pelo mundo desviado de hoje.
    Boa sorte com seu trabalho

  15. Grato pela visita e pelos elogios. Já retribui a visita ao seu blog o qual está muito interesante e do qual irei ser atento leitor.

  16. Esparta até ao fim !!

  17. Puxa estou abismado com o contexto desse estraordinario relato ao qual com certeza nao foi escrito apenas como um semblante de gloria , mas como um adeixa de lição e moral para nos os outros que vindoura estamos… no qual hoje em dia anda bem esquecido esse tipo de atitude… parabens pelo contexto aqui presente. agora vejo o quanto o ser-humano de hoje ando ao lado da ignorancia e esquecimento de valores. respeito e honra….

  18. Sou aluna da setima série e meu professor propôs um debate entre Esparta e Atenas.´Caí no grupo dos que defenderiam esparta e confesso que foi muito difícil achar algo que me ajudasse a defendê-la.Mas quando comecei a ler esses textos percebi que esparta não é apenas uma cidade militarizada e oligarquica cmo quase todos os sites de pesquisa me informam mas ela é o verdadeiro berço da democracia, onde nasceram e foram ensinados os maiores e mais preciosos valores da humanidade.Uma vez li uma frase de um espartano a um tirano e ela dizia o seguinte “Acima de todos os espartanos está a lei, um senhor a quem nós tememos muito mais do ue teus servos tem medo de ti” e acho que poucas ideias foram tão capazes de mudar o mundo.

  19. “Mas quando comecei a ler esses textos”

    quais? podia-me indicá-los? Obrigado

  20. MUITO BOM TEXTO ESTOU ARREPIADO….
    E PARABENS JAHGM POR ESTE SITE….

  21. Matheus "Mosquito" Ritter

    Muito bom esse texto, ñ só o o texto mas o site todo é bom, seu(s) criador(es) está(ão) de Parabéns!!!!

    Respeito e Honra!!!

  22. Oi eu tenho 14 anos e até sexta ainda
    não tinha ouvido falar di esparta nen atenas
    tenho um trabalho mt dificil pra fazer sopre o surgimento
    da filosofia atenas e esparta e suas democracias e religiões
    e não tenho nen nosão di como fazer isto e é pra sengunda feira
    eu queria sugestões mas tbm depois disso queria continuar em contato com
    voces achei mt envolvente toda a históia me enterecei muito
    pretendo que voces não si emportem !!!
    tchal até +

  23. cara se quiser defender Esparta fala para o seu professor que ali existia honra….e ao contrario de hoje onde tudo se resolve na base da conversa e tudo vai ficando cada vez pior e cada vez mais lixo nesse mundo lah se resolvia na espada e fim de papo….mata o sujeito e fim…
    claro que se professor nao vai concordar….o mundo hoje ta cheio de babaca que se faz de intelectual…mas que na hora H tira da seringa…

  24. É uma história linda!Um dos povos mais guerreiros e corajosos que já ouvi falar!Sou fascinada pela coragem principalmente das mulheres,que naquele tempo não tinham valor nenhum!Mas em Esparta tinham seu valor e eram ouvidas!É incrivel!!

  25. estou impressionado com a complemento do te xto,muito bom,meus parabens respeito e muita honra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  26. O texto demonstra que mesmo o medo não consegue tomar conta de um espartano eles são regidos não pelo ódio ao inimigo mais pelo medo da vergonha pela luta da honra, pelo amor a pátria e neste caso o respeito a Leónidas a morte em guerra não espanta um espartano pois ele vai preparado para lutar, combater e até mesmo morrer em favor dos seus ideais.

  27. Adorei seu texto
    Inclusive
    eu coloquei ele no meu perfil no jogo tribal wars
    muito bom
    acessem la
    meu nome é felipe9900

  28. povo revoltado (acima)

  29. eu so queria o MODO DE VIDA e nao achei
    cd?

  30. muito bom esse comentario sobre os espartas

  31. q otimo0 esse texto

  32. parabens muito bom mesmo..

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